FAMILIA TEA BAURU| Artigo: Nossas palavras importam, por Dra. Grace C. Ferreira-Donati

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A linguagem que criamos, em função do mundo no qual existimos, dá nome a tudo o que nos rodeia e ao que vive dentro de nós também. É por meio da linguagem que nomeamos as pessoas, coisas, qualidades, fenômenos meteorológicos, tudo o que a gente faz, pensa e sente. Os nomes, as palavras que atribuímos a tudo, importam e muito.

Certa vez, o poeta Manoel de Barros, com raízes bem fincadas na natureza, se entristeceu porque nomearam de enseada o rio que fazia uma volta atrás de sua casa e que ele chamava de cobra de vidro, um vidro mole. Roubaram-lhe a poesia.

Pois bem, no desenrolar da história do autismo temos atribuído muitos nomes diferentes a uma mesma existência e o mesmo nome a realidades bastante diversas. Chamamos de transtorno o que talvez seja uma variante neurológica própria da nossa biodiversidade. Chamamos de paciente, quem deveria ser para nós, um aprendiz, um cliente, sem doença esperando cura. Chamamos de agressivo quem, muito provavelmente, era só alguém que fez o melhor que podia com as possibilidades daquele minuto.

Quando classificamos alguém como não-verbal, assumimos que alguém É assim, como num estado permanente; se fosse pré-verbal, assumiríamos que ele(a) está numa fase, numa etapa… hoje é pré-verbal, está pré-verbal. É certamente mais justo assim.

Ouvimos um nome e seguimos a copiá-lo, sem refletir ou escolher, colocando-o em contextos muito variados, forçando que se encaixem. Emprestamos palavras da Medicina para usar na Educação, reanimamos termos mortos da era dos sanatórios, perpetuamos palavras do séc. XVII. Adoecendo palavras, adoece-se nossa visão, e daí, tudo o que vemos muda.

Então, eu lhe pergunto: as palavras que você tem usado na relação com as pessoas autistas te aproximam ou te afastam de uma experiência compassiva, neuroafirmativa, não-hierárquica e mais justa?

Autora: Dra. Grace C. Ferreira-Donati (CRF.ª 10311), QBA

Fonoaudióloga, doutora em Educação e Analista do Comportamento Qualificada (QBA)@adastrabrasil

Agradeço ao grupo Família TEA Bauru e ao Portal GPN pela oportunidade de escrever sobre um tema tão importante.

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